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| Figura2: Zona de fulga, ponto de equilíbrio e posições para parar e iniciar o movimento do bovino
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| figura1: Campo de visão do bovino (linha tracejada) e área cega (área mais escura)
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Introdução
O comportamento de bovinos de corte assume interesse crescente em virtude de influenciar aspectos produtivos e de bem-estar animal. A compreensão do comportamento social dos bovinos permite reduzir o estresse durante procedimentos de rotina na pecuária de corte, bem como facilitar a realização dos manejos com os bovinos.
Assim sendo, o conhecimento do comportamento de bovinos em confinamento é econômica e eticamente interessante à cadeia da carne.
Utilizando o comportamento para facilitar as
atividades do dia a dia
O comportamento apresentado pelos animais é a resposta frente a um estímulo, visando à adaptação ou ajuste à situação que encontrou, podendo a resposta ser voluntária ou involuntária. Pode também ser definido como a interação de habilidades herdadas e experiências adquiridas. Habilidades herdadas ou instintos são reflexos de padrões comportamentais apresentados de forma automática, desde a primeira vez que o animal é exposto a determinado estímulo. Experiências adquiridas dividem-se basicamente em três tipos: habitação, condicionamento e aquisição de habilidades.
A habituação é uma adaptação gradual a estímulos repetitivos, fazendo com que o animal pare de responder a um dado estímulo que não é associado nem à punição nem à recompensa. É o que acontece no confinamento quando os animais se acostumam a pessoas, passando no corredor.
O medo de humanos e a aversão às novidades podem variar entre os indivíduos, em decorrência de experiências prévias e também da genética, visto que características de comportamento são em parte herdadas.
Com a exposição gradual dos animais às novas experiências, a maior parte deles se habitua a estímulos que anteriormente evocariam uma reação de fuga. Entretanto, a habituação não deve ser confundida com fadiga, quando um animal deixa de responder a um estímulo pelo fato de estar extremamente cansado, sem estar habituado.
A seleção dos funcionários deve ser baseada na avaliação do comportamento destes frente aos animais confinados, valorizando os que realizam o manejo de forma mais calma (sem deixar de ter ritmo de trabalho), podendo ser necessário, em algumas vezes, um prévio treinamento para que costumes indesejáveis estressem sobremaneira os animais, tais como: movimentos bruscos, pancadas, gritos, choques, torções de cauda, entre outros, deixe de ser realizados ou ocorram apenas de forma esporádica, em momentos de eventual necessidade. Tais ações ou “estímulos” são estressantes e devem ser evitadas na lida com animais confinados.
Quando um animal associa um estímulo até então sem significado com outro estímulo com significado para ele, dizemos que ocorreu condicionamento. É o caso de os bovinos associarem o barulho de trator que servirá o trato ao fornecimento de alimento. Pode também ocorrer de um estímulo com algum significado ser associado a outro estímulo, com outro significado.
A aquisição de habilidades ocorre pela integração de componentes separados do comportamento, resultando em padrões de comportamento complexos e eficientes, passando a habilidade a se tornar constante.
Devido à implantação lateral dos olhos dos bovinos, seu campo visual (Figura 1) é bastante amplo, conferindo visão panorâmica ao redor de 330º e uma visão binocular de 25 a 50º, permitindo fácil percepção de predadores. Entretanto, seu campo de visão tem uma área cega na parte traseira (Figura 1). Bovinos apresentam pupila alongada e músculos oculares fracos, o que dificulta focalizarem um objeto rapidamente. Apresentam também pouca percepção de profundidade, fazendo com que estanquem e se recusem a passar sobre locais mais escuros, como uma sombra ou dreno d’água. Por isso, quando isto acontecer, aguarde um momento até o primeiro animal reconhecer que não há perigo, e reinicie o deslocamento, que o resto do grupo o seguirá.
O bovino desloca-se facilmente de um local mais escuro para um mais claro. Assim, se as cercas ao lado da porteira forem sólidas (sem espaços entre as tábuas), a luminosidade que ocorre ao abrir a porteira atrai o bovino para esta direção, sem necessidade de ação humana.
Outra importante característica comportamental dos bovinos é a “zona de fuga”, um círculo imaginário ao redor do animal (Figura 2), cujo tamanho varia em função de vários aspectos, como da habituação com humanos, da idade, grau de sangue. Ao entrar na zona de fuga de um bovino, ele normalmente reage observando os movimentos da pessoa e, em seguida, tentando fugir. Se entramos na zona de fuga de um animal por trás, ele tende a se deslocar para frente, enquanto, se entrarmos pela frente, o animal tende a se virar para trás e afastar-se da pessoa (Figura 2). Se não entrarmos na zona de fuga, o animal não se deslocará, ao passo que, se entrarmos muito ou muito rápido na zona de fuga, o animal se deslocará em alta velocidade, correndo risco de se contundir. O ideal é a pessoa localizar-se no limite da zona de fuga, fazendo o animal deslocar-se ao passo. Caso ele esteja deslocando-se muito rápido, devemos afastar-nos, saindo de sua zona de fuga, fazendo com que ele diminua a velocidade, evitando acidentes.
Animais com comportamentos muito diferentes do resto do grupo, indicando doença ou incompatibilidade social naquele grupo, é recomendado à retirada de tais animais do lote.
Hierarquia social e socialização no confinamento
Uma das consequências da vida em grupo é o desenvolvimento de interações sociais e relações entre os membros do grupo.
O estabelecimento da hierarquia social ocorre durante os primeiros dias na formação de um grupo de bovinos, em que os animais mais fortes ou aptos a lutarem tornam-se dominantes, e os mais fracos, submissos. A hierarquia social é uma forma de poupar energia e preservar a integridade física dos componentes do rebanho, pois não há mais desgastes nem ferimentos com brigas: os dominantes terão prioridade no acesso aos recursos (comida, água, sombra, solo seco para deitar). Os submissos alimentar-se-ão e descansarão em função da quantidade disponível do recurso e da área cujo recurso esteja distribuído, pois estes sempre procuram manter certa distância dos dominantes.
Montas e brigas entre animais, se frequentes, podem prejudicar tanto os animais dominados (lesões) quanto os dominantes (gasto energético superior). As causas para estes comportamentos anormais não estão bem definidas. Há casos em que é preciso retirar animais do lote para amenizar o problema.
Atenção especial deve ser dada ao animal extremamente submisso, mais frequentemente observado em machos inteiros. Nesta situação, um animal é constantemente montado por muitos integrantes do lote, o que reflete em dificuldade de se alimentar e até comprometimento de sua integridade física. Tais animais devem ser retirados do lote.
Idade, sexo, composição genética e chifres
Tanto a idade, como o sexo e a composição genética podem afetar o comportamento dos animais durante o manejo e transporte.
Animais mais jovens usualmente são mais assustados em comparação aos mais velhos, o que pode ser exacerbado pela falta de instalações adequadas a esta categoria, visto que normalmente só há uma instalação disponível, que deve permitir o uso por animais maiores.
O sexo influencia na composição do ganho de peso e a composição da carcaça, de modo que animais de sexos diferentes chegarão ao ponto de abate (mesmo grau de acabamento da carcaça) em pesos ou idades diferentes: fêmeas atingem o ponto de abate mais cedo e mais leves que os machos castrados que, por sua vez, estarão acabados mais cedo e mais leves que machos inteiros. De forma semelhante, animais taurinos tendem a estar prontos para o abate em menos tempo que animais zebuínos, assim como animais de raças de menor estatura, por exemplo Angus, podem ser abatidos em menos tempo que animais de maior porte, como o Simental, por exemplo.
Apesar de usualmente se considerarem machos inteiros mais difíceis de serem manejados em comparação aos castrados, esta ponderação é dependente da idade dos animais, pois, até cerca de dois anos de idade, há pouca variação na dificuldade de manejo entre estes dois grupos.
Os chifres constituem-se num meio de defesa do animal e, como tal, podem gerar vários inconvenientes.
Mesmo havendo poucos animais com chifre no lote, pode-se aumentar consideravelmente o número de lesões.
Vários estudos têm demonstrado que bovinos com chifres têm duas vezes mais lesões do que animais mochos ou descornados. As vantagens da ausência de chifres nos bovinos são muitas: os animais descornados ou mochos acomodam-se melhor nos caminhões, currais, estábulos, bebedouros, cochos, facilitam o manejo do lote, evitando as tradicionais chifradas que sempre terminam machucando o animal, causando lacerações e perfurações de pele.
Dimensionamento das instalações
Em confinamento, a formação dos grupos sociais é diferente, com maior densidade de animais, reduzindo o espaço disponível para cada indivíduo. Em tais situações, pode não ser possível para um animal manter uma distância desejada de outros, fazendo com que animais submissos se desloquem com frequência, visando a fugir dos animais dominantes.
Após a formação dos grupos, eles tendem a ser relativamente estáveis. Este conhecimento pode ser útil em situações de confinamento, evitando mudar os animais de lotes após a formação inicial. Esta recomendação é válida também para procedimentos de pesagem, transporte e alojamento nas baias do frigorífico, em que, na medida do possível, é recomendado manter a formação original dos lotes sem misturá-los. Na impossibilidade de manter os lotes originais durante estes processos, é preferível misturar lotes vizinhos a misturar lotes de baias distantes.
Via de regra, os confinamentos são realizados na época seca do ano. Entretanto, devido a chuvas ocasionais, bem como o acúmulo de excrementos, pode haver excesso de umidade, podendo conduzir à formação de lama. De modo geral, bovinos ficam incomodados ao permanecerem na lama, só deitando nela quando muito cansados, o que prejudica seu desempenho. Sendo assim, se apenas parte da baia estiver seca, apenas os animais dominantes deitarão, enquanto os submissos permanecerão em pé.
A área mínima por animal é ao redor de 10 a 12m2/animal, com o piso apresentando leve inclinação (ao redor de 3%), de modo a minimizar a formação de lama, pelo acúmulo de água e excrementos. Caso o confinamento seja realizado na época chuvosa do ano, a densidade deve ser maior, disponibilizando cerca de 50m2/animal e declividade do piso ao redor de 8%.
Como os bovinos preferem ficar ao lado da cerca em comparação ao meio da baia, é preferível que a baia apresente formato retangular em comparação ao quadrado, devido ao concretado, com largura entre 1,8 a 3,0 metros.
É recomendável também que os lotes não excedam 100 cabeças/piquete. Uma regra útil é que o tamanho do lote seja compatível com a capacidade de carga dos caminhões de transporte. Com isto, terminado o período de confinamento, será possível vender todo o lote, sem que fique um ou mais animais para trás.
Cochos de alimentação e mineralização
Os cochos de alimentos podem ser construídos de diferentes materiais, podendo ser colocados até a uma altura máxima de 40 cm do solo, considerando o fundo do cocho ao solo, sendo importante que se permita que todos os animais possam alimentar-se ao mesmo tempo, disponibilizando cerca de 50 a 70 cm linear por animal.
Caso a mineralização não seja fornecida na dieta, é recomendado disponibilizar cocho de sal para os animais, em local distinto ao cocho de alimentação, de preferência longe dos bebedouros, para evitar aglomeração de animais. Quatro metros de cocho para sal são suficientes para 100 animais.
Alimentação
Em confinamentos, dificilmente a dieta é estritamente volumosa, pois normalmente inclui grãos de forma a balancear o requerimento nutricional dos animais. Neste caso, o tempo de ingestão e de ruminação são reduzidos. Animais taurinos apresentam maior tolerância a elevada proporção de grãos na dieta em comparação aos zebuínos.
A adaptação dos animais a alimentos distintos ao que estão acostumados a ingerir é sempre recomendável. De preferência, deve ser feita de forma paulatina.
Em confinamento, os animais devem receber alimento várias vezes ao longo do dia, pois quanto maior a oferta de alimento, maior a ingestão do mesmo.
Oferta e qualidade de água
A água é um fator determinante direto na produtividade dos animais, possuindo papel fundamental para a vida, sendo o constituinte mais abundante do organismo dos animais, responsável por aproximadamente 70% do corpo de um bovino adulto.
Sabendo que o comportamento de ingestão da água pelos bovinos é fracionada, e se o consumo de água estiver limitado, consequentemente, a ingestão de alimentos diminuirá e será mais lenta, prejudicando o ganho de peso.
Dependendo da qualidade da água ofertada, podem ocorrer alterações no desempenho e constituir-se em um fator limitante na produção animal, levando à perda de peso, falta de apetite, transtornos digestivos, e, em alguns casos, chegar à morte.
A quantidade de água oferecida é tão importante quanto a qualidade. A privação de água geralmente resulta na perda de peso. Isto é de tal importância que se um animal ficar um dia sem água (jejum hídrico), ele leva aproximadamente dois dias para retomar à sua condição para ganho de peso.
Um bovino adulto consome entre 8 a 10% de seu peso vivo em água por dia, ou seja, cerca de 50 litros/cab/dia. A temperatura elevada pode aumentar entre 30 e 60% a necessidade de água. As forragens secas e os concentrados demandam maior consumo de água que as forrageiras verdes, sendo recomendado, no mínimo, 0,30 m (linear) de comprimento de bebedouro/animal.
Manejo de embarque e transporte
O transporte é uma etapa que requer grande atenção por parte do produtor, devido ao elevado risco de contusões e prejuízo à qualidade de carne apresentado nesta fase.
A base para um bom processo pré-abate é o planejamento de todos os detalhes, desde providenciar os documentos necessários até o embarque propriamente dito dos animais.
Outros pontos importantes são listados a seguir:
Definir com o responsável pelo transporte (transportadora, motorista ou frigorífico), quantos veículos serão utilizados e a capacidade de carga de cada um deles, evitando, assim, superlotação dos compartimentos de carga.
O curral é local de manejo dos animais, não sendo recomendado manter os animais presos por períodos longos. O ideal é dispor de piquetes próximos ao curral para acomodar os animais enquanto esperam o embarque.
Forme lotes de embarque de acordo com a capacidade do caminhão ou da carreta. Faça tudo para manter animais do mesmo lote de origem, que já se conhecem.
Considerações finais
O conhecimento do comportamento de bovinos de corte e a utilização deste conhecimento nas atividades rotineiras do confinamento vão sendo, aos poucos, implantadas na cadeia da carne brasileira, minimizando as experiências estressantes que um bovino enfrenta ao longo de sua vida, bem como o esforço de trabalho na lida com estes animais, assegurando bons rendimentos de carcaça e alta qualidade de carne. Isso leva ao atendimento de expectativas de muitos consumidores, que requerem cada vez mais segurança alimentar e bem-estar dos animais.
Anita Schmidek • Braz C. de Oliveira Junior • Mateus J. R. Paranhos da Costa • Flávio Dutra de Resende
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